Quem sou eu

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Eu sou uma bruxa Com rimas e razões. Eu estou em mudança como as estações. Minha mãe é a lua, Meu pai é o sol, Eu sou uma com a Deusa Terra. Eu sou uma bruxa, uma criança Pagã. Espírito da natureza da mãe selvagem Cresce dentro de mim, flui dentro de mim, Serpenteando como um córrego enfeitiçado, Encantando cada meu despertar sonhando. Eu respiro o AR da libertação, Eu tendo o FOGO da transformação, Eu bebo a Água da criação, A Magia da TERRA é minha conjuração. Eu sou uma BRUXA da sombra e ilumino-me, Do vôo das névoas e dos corvos de Avalon. Eu sou uma bruxa, com orgulho dizer Eu ...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Orfeu e Euridice


Orfeu adorava a esposa Eurídice, uma ninfa da floresta. Recém-casado, a maior felicidade
do filho de Apolo era tocar sua lira para a mulher. Sendo filho do deus da música, não era de
estranhar, realmente, que tivesse a mesma perícia do pai. Por onde quer que Orfeu andasse,
tocando o seu instrumento, tudo como que se paralisava, todos atentos, exclusivamente, ao som
que saía de seus talentosos dedos.
— Toque outra canção para mim — pedia Eurídice todas as noites, antes de adormecer.
Era tanta a paixão que a jovem nutria pela música do marido que às vezes o próprio
Orfeu deixava de lado a Ura, enciumado da própria música.
Um dia, Eurídice estava passeando com suas amigas ninfas quando, separando-se delas,
entrou por uma vereda do bosque, onde gostava de caminhar. Sentado, com as costas apoiadas a
um tronco, estava o pastor Aristeu, entregue aos seus pensamentos. Percebendo que alguém se
aproximava, ergueu a cabeça.
— É ela, Eurídice! — disse Aristeu, que era apaixonado pela ninfa. Levantando-se com
rapidez, foi na direção da moça, tentando parecer que
era um encontro casual. Eurídice, no entanto, recuou alguns passos ao vê-lo, pois sabia
dos sentimentos que o pastor nutria por ela.
— Espere, volte aqui! — gritou Aristeu. — Não precisa se assustar.

Mas Eurídice não queria conversa. Por isso mesmo apertou mais o passo. Aristeu,
revoltado, lançou-se em seu encalço.
— Não adianta fugir de mim, Eurídice, pois a amo e ninguém me impedirá de tê-la um
dia só para mim!
— Ninguém, a não ser a minha vontade! — respondeu Eurídice.
Aristeu não escutou estas palavras, pois o amor só escuta o que lhe convém.
Aproveitando que a mulher parará para lhe dizer estas palavras, agarrou os ombros dela e tentou
beijá-la à força.
— Adoro você, Eurídice, e você ainda há de ser minha, de qualquer jeito! -exclamou o
pastor com a voz alterada e o rosto congesto.
A ninfa, percebendo que corria perigo, arremessou-se numa corrida para dentro da mata.
Enquanto fugia, sentia atrás de si os passos ligeiros de seu perseguidor. De repente, porém,
Eurídice aproximou-se perigosamente de uma serpente, que, assustada, acabou picando o seu
tornozelo. A ninfa caiu ao solo, com um grito de dor. Aristeu logo a alcançou, mas descobriu que
nada mais podia fazer para salvar a sua amada. A jovem, aos poucos, perdia a consciência,
ingressando no mundo das sombras.
Quando Orfeu recebeu a terrível notícia, sua alma cobriu-se de luto; sua lira, que até
então somente tocara acordes alegres, agora silenciara; a partir daí, nas raras vezes em que tocava,
tudo o que se ouvia eram sons tristes como um lamento. Não conseguindo mais viver sem sua
adorada Eurídice, Orfeu tomou uma decisão extrema: foi até Júpiter, pedir que a trouxesse de
volta da mansão dos mortos.
— Não posso fazer nada sem a concordância de Plutão — disse o pai dos deuses,
convencido da dor do infeliz amante. — Tudo o que posso fazer é lhe ceder Mercúrio, que o
conduzirá até o reino de meu irmão.
— Ótimo! — disse Orfeu. — Irei amanhã mesmo até o inferno para trazê-la de volta.
Abandonando tudo, Orfeu partiu na outra manhã, tendo apenas a companhia de
Mercúrio. Pela primeira vez desde a morte da esposa, o poeta mostrava-se um pouco animado,
chegando até a tirar alguns alegres acordes do seu instrumento. Porém, logo retornou à sua
música plangente, ao chegar à gruta que, segundo a tradição, dava acesso à morada dos mortos.
— Aqui é a entrada dos infernos — disse Mercúrio, apontando a cratera com seu
caduceu.
Sem medo algum, Orfeu começou a descer as profundezas do terrível abismo. Quanto
mais descia, maior era a escuridão, tanto que foi obrigado a acender um facho. Depois de muito
andar, avistou ao longe o brilho de algo tremeluzindo ao chão. Era o Estige, um dos rios infernais
que levam ao reino de Plutão. Ali estava ancorada uma barca, tendo ao lado e em pé Caronte,
com sua longa barba branca e seu olhar de poucos amigos.
— O que quer aqui? — disse o velho, apalpando o visitante. — Você não tem a aparência
de um morto.
— Quero rever minha esposa, que desceu recentemente a este lugar — disse Orfeu, com
decisão. — Aqui está Mercúrio, que traz a autorização do próprio Júpiter.
— E como pensa que vai passar para a outra margem? Com seu corpo pesado irá levar a
pique a minha barca — disse Caronte, ameaçando o intruso com seu pesado remo.
— Vamos, toque logo esta droga! — ordenou Orfeu, sem se impressionar com as
ameaças do velho senil. — Eu a manterei flutuando com os acordes de minha lira.
Intimidado com a vontade de Orfeu, Caronte desatou as amarras que prendiam a barca à
terra e, maravilha para seus cansados olhos, ela flutuou com mais leveza do que nunca sobre as
águas escuras do temível rio. Ao desembarcar. Orfeu acalmou com seus acordes a ira de Cérbero
— o monstruoso cão de três cabeças que guarda a entrada do inferno -, de modo que ele veio
rastejando docilmente e lambeu com suas três línguas os pés do inesperado visitante. Depois
Orfeu cruzou com vários condenados, que ao escutarem a melodia que saía das mãos do músico
cessaram por alguns momentos a sua faina. As danaides deixaram cair ao chão os seus baldes de
chumbo; Íxion deixou de girar a sua roda; e Sísifo abandonou o seu rochedo, que rolou colina
abaixo.
Avançando sempre, Orfeu chegou, enfim, diante do trono de Plutão e de sua esposa,
Prosérpina. Ambos pareciam interessadíssimos naquele vivo que chegava ao seu reino daquela
maneira surpreendente.
— O que deseja aqui, visitante? — disse Plutão, brandindo seu tridente, como a
demonstrar que, ainda que apreciasse a música, não aprovava aquela invasão de seus domínios.
— Vim implorar a vocês, soberanos do mundo subterrâneo, que peçam às Parcas para
que reatem o fio partido da vida de minha esposa Eurídice, devolvendo-a à vida. Se não puderem
ou não quiserem fazê-lo, no entanto, que cortem também o fio de minha vida, permitindo que eu
aqui permaneça junto a ela.
Impressionado com a retórica e com a melodia de Orfeu, Plutão pediu a Mercúrio que
trouxesse a esposa do visitante. Impossível descrever a reação que se apoderou de Orfeu quando
viu novamente sua amada. Suas pernas tremiam: sua face convulsa era uma máscara de todos os
rostos que a emoção pode pintar: e sua voz, um grito como jamais se ouviu igual.
— Eurídice, você está viva! — disse o esposo à mulher morta.
Ela lançou-se aos braços de Orfeu e durante alguns minutos o inferno inteiro silenciou,
em respeito à dor dos dois amantes.
— Está bem, permito que você a leve de volta para a Terra — disse Plutão. com a
concordância de Prosérpina. — Porém, há uma condição.
— Sim, diga qual é — disse o impaciente Orfeu.
— Você deverá fazer o restante do trajeto sempre à frente de sua esposa, jamais
voltando-se para trás para olhar para ela. Se o fizer, imediatamente a perderá para sempre —
disse o deus infernal, de maneira categórica.
— Está bem, assim o farei — disse Orfeu, seguindo adiante, levando atrás de si Eurídice
e Mercúrio.
Refizeram, assim, todo o trajeto da descida, só que em sentido contrário. Por várias vezes
Orfeu teve ímpetos de voltar-se para trás para ver se sua esposa ainda o acompanhava, recebendo
sempre sua admoestação:
— Não, Orfeu, não se vire!
O poeta já divisava nas alturas a cratera por onde ele e o deus mensageiro haviam
entrado.
— Veja, Eurídice, estamos quase chegando! — disse Orfeu, voltando-se inadvertidamente
para ela, a um passo da liberdade.
Nem bem seus olhos fixaram o rosto de sua amada, viu-a ser carregada de volta à
escuridão pelos braços de Mercúrio.
— Espere, não, volte! — clamou Orfeu, devorando com os olhos a última imagem de
Eurídice, que, com os olhos esgazeados, lhe estendia inutilmente as mãos.
Um grande terremoto sacudiu a caverna, fazendo com que um imenso rochedo
bloqueasse para sempre o seu regresso ao reino das sombras. Orfeu, no último limite do
desespero, arrancava os cabelos e dilacerava o rosto.
— Ai de mim! Por que fui olhar para trás no último minuto, faltando tão rouco! — dizia,
inconsolado.
Mas nada mais havia a fazer. Eurídice estava longe dele, para sempre.
Orfeu, tal como o desgraçado Édipo, parecia destinado a ser perseguido incessantemente
pelos deuses, até a sua morte. Deixando o lugar, percorreu várias feiras, arrancando de sua lira
acordes lúgubres e ao mesmo tempo de uma beleza triste. Instalando-se numa floresta, na Trácia,
Orfeu dedicou-se a tocar sua música, alheio a tudo o mais. As mulheres de lá, no entanto, não
cessavam de persegui-lo, em especial um grupo de bacantes — sacerdotisas de Baco -, que tudo
faziam para conquistar seu amor. Era em vão que prometiam ao poeta raros prazeres e lhe diziam
palavras das mais doces. Ele mostrava-se sempre irredutível, até que um ia. tomadas por um furor
maligno, as mulheres avançaram para ele, lançando-lhe pedras e dardos, sem, no entanto, atingilo,
pois sua música o protegia.
— Abafem o som da música! — disse uma das bacantes, enlouquecida de ódio. Batendo
seus tambores e estalando seus címbalos, elas finalmente conseguiram abafar a música de Orfeu,
tornando-o vulnerável aos seus ataques. Uma chuva de pedras e dardos desceu, então, sobre o
poeta, que tombou morto sob te implacável ataque. Não satisfeitas, as bacantes ainda pegaram o
corpo do músico e o fizeram em pedaços, lançando sua cabeça e sua lira no rio que leva o —
esmo nome do poeta. Enquanto elas avançavam juntas em direção ao mar, iam passando pelas
margens, encantando os pastores e as ninfas que as habitavam. A alma de Orfeu, no entanto,
estava liberta, e tão logo se viu livre de suas perversas algozes, o poeta correu para os braços de
sua Eurídice, que o aguardava no mesmo lugar onde ele a deixara.

2 comentários:

Elzira disse...

Que história maravilhosa!!!

Ceridwen Luna disse...

Oi Elzira ... é uma ´belissima história mesmo ... uma das minhas preferidas ... blessed be.

Oração a Ceridwen

"Ceridwen, Senhora do Caldeirão,
Vc que conhece os Mistérios, da Vida, da Morte e do Renascimento,
Que a Luz de seu Caldeirão, a fonte de todo Conhecimento, se espalhe sobre minha Vida, ensinando me seus Mistérios"